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11 de junho de 2015

Minha linha do tempo das greves nas Universidades

Faixa dos estudantes de biologia da Ufrgs, durante greve em 1996. Esta faixa rodou o Brasil entre os Encontros de Biologia daquele ano.


A Greve nas Universidade Federais e outras Instituições Federais de Ensino (IFE) entrará na sua terceira semana. Docentes e Técnicos Administrativos de, por hora, 25 IFEs, e estudantes em várias universidades estão parados reivindicando diversos direitos que se existissem, fariam o slogan "Pátria Educadora" parecer, no mínimo, coerente.

São 35 anos desde a primeira greve do ensino público superior, que obteve adesão quase total dos docentes no Brasil. Naquele ano o governo acordou com a reestruturação da carreira docente e reajuste de mais de 80% nos vencimentos. Desde então foram perto de 19 greves com diversas graus de adesão, mas de poucas conquistas e muitos sacrifícios.

Em 2015 completo 10 anos como professor no ensino superior. Como esta década coincide com a greve atual, resolvi escrever o relato a seguir, uma breve retrospectiva, mas do ponto de vista dos meus anos no ensino superior enquanto estudante e agora, como professor.

Entrei no curso de Biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1993. Lembro bem da primeira impressão ao caminhar pelo Campus Centro da UFRGS. Prédios muito antigos, e em especial, o antigo prédio da Medicina, nosso primeiro local de aulas. O acesso era pela porta dos fundos, por uma alta e estreita escada. Lembro da condição do forro dos tetos, a maioria desabando; os banheiros quebrados. Internet? Essa mal existia, então não conta. Mas me recordo bem dos laboratórios com muitos equipamentos velhos ou quebrados, parados nos cantos. Poderia ser uma má primeira impressão, mas eu não tinha parâmetros do que seria o ideal - tudo no ensino superior para mim era novidade. Assim achei quase 'normal' aquela situação, mas a recessão em todos os setores do Brasil estava longe de ser normal.

Nesse ano as aulas do segundo semestre começaram atrasadas pois havia acontecido a greve de 1993. Foi o ano do Plebiscito do Sistema de Governo e o Presidente Itamar Franco já tramava a criação do Plano Real. Mas pela educação nada vinha sendo feito até então. Foi a primeira greve com adesão dos estudantes. Depois de pouco mais de um mês, a desarticulação acabou com o movimento e além de 85% de reajuste, as discussões de autonomia e negociação de um plano de carreira estavam apenas começando.

Nosso primeiro acampamento de greve no campus central da UFRGS foi em 1996. Já era a era do o Governo FHC e as paralisações foram marcadas por ameaças de corte de ponto e demissões. A mobilização pela greve pareceu fraca e não foi uma greve muito longa. Entretanto, a interação entre os estudantes, principalmente entre nós da Bio, fortaleceu o Diretório Acadêmico, tanto que neste mesmo ano diversos alunos da Bio foram ao Encontro Nacional de Estudantes de Biologia (ENEB) em Belém do Pará, um encontro histórico. Este engajamento culminou em 1998, com o ENEB de Porto Alegre, organizado pelos mesmo “acampantes” de 1996, e que constituiu uma mudança histórica dos Eneb’s pelo Brasil, com muitas quebras de paradigmas, avanços no movimento estudantil e preocupação ecológica.

Estudantes, professores e funcionários da Ufrgs, reunidos no salão nobre do Instituto de Biociências, em uma das primeiras assembléias unificadas da greve de 1996.
 
Estudantes, professores e funcionários da Ufrgs, em uma das primeiras assembléias unificadas da greve de 1996.

Também em 1998 aconteceu uma greve. Com certeza pra mim a greve mais marcante foi a de 1998. Os estudantes aderiram novamente ao movimento grevista e no campus Central da UFRGS, desta vez um grande acampamento foi montado. Lá permaneceram, professores técnicos e estudantes, inclusive eu, por vários dias, quase todos os 105 dias em que a greve vigorou. A Rádio Muda, rádio livre dos estudantes foi montada no último andar do prédio da faculdade de Educação, e de lá transmitíamos as notícias da greve e muito Rock'n roll em um raio de poucos quilômetros do campus, e que mesmo assim nos custou a visita da Policia Federal. O acampamento foi uma grande oportunidade de exercício político, e eu pude aproveitar ao máximo. A pauta, antes de tudo, era preservação da qualidade do ensino superior, gratuito! E mais autonomia às universidades. Foi obtido a criação da GED, mas os concursos públicos, parados, continuaram inexistentes. 

Entre 2000 e 2005, já formado, estive em universidade pública estadual ou trabalhando como autônomo, então não acompanhei de perto o movimento federal destes anos. Mas em 2005, recém chegado na Ufac, ainda no processo de estruturação do campus, comprando equipamentos, montando os planos de ensino e o projetos dos cursos, acompanhamos a greve de 112 dias, a mais longa das greves até então. Concursos públicos, incorporação das gratificações, garantia da Universidade pública, gratuita, autônoma, democrática, laica e de qualidade, além do aumento do orçamento para o ensino, eram alguns dos pontos. Um parco aumento do orçamento foi obtido naquele ano.

O começo do ano de 2012 evidenciou a precariedade de várias instituições de ensino superior pelo Brasil. A consequência foi a maior greve já articulada em defesa do ensino público. Desta nada pude acompanhar pois estava fora do país durante capacitação de doutorado sanduíche. Com adesão de mais de 95% das IFEs, foi a mais longa e intensa da categoria, causada, principalmente, pela insatisfação dos professores com a desestruturação na carreira e as precárias condições de trabalho. 

O que mais chama atenção neste retrospecto, é que muito do solicitado em parte destes mais de 30 anos de lutas, continua sem avanços. Como em 2012, também agora em 2015 existem instituições sem professores, sem laboratórios, sem salas de aula, sem restaurantes universitários, ou estes sem verba pra comida, limpeza, até sem bebedouros e papel higiênico. Imaginem, o RU do Campus do Vale da Ufrgs já foi fechado mais de uma vez pela vigilância sanitária! Muitas outras IFEs estão enfrentando problemas de falta de limpeza e segurança. Isso tudo afeta diretamente a qualidade do ensino.

Diz-se que os alunos estão sendo afetados pela greve. O que é pior para o aluno: estudar / estagiar no meio do lixo, sem segurança, comendo pata de barata e cabelo no bandejão, ou, atrasar alguns dias as aulas e apoiar a mudança deste panorama?

Também a estrutura da carreira docente engatinhou nestes 35 anos de luta. Na greve de 2012 o governo não negociou de fato e, por meio de um acordo muito mal explicado, dissimulado, impôs uma lei que desestruturou ainda mais a carreira docente. Não houve a reposição integral das perdas salariais e total desconsideração quanto ao tema que trata da precarização das condições de trabalho, por parte do governo.

Condições de Trabalho -> Ninguém deveria ser submetido a trabalhar, a ensinar ou a aprender em situações precárias como estão hoje muitas IFEs pelo Brasil.
Sofrem professores, estudantes e técnicos administrativos.
Mas muito mais que isso, sofre todo o povo brasileiro.
Que serviço de qualidade será prestado por profissionais formados em Instituições com esta precarização? Que ensino será oferecido aos brasileirinhos que estão vindo das escolas fundamentais e médias?
Portanto, a luta é de todos. Não é só dos professores ou dos técnicos. TODOS temos a responsabilidade por querer educação pública de qualidade, gratuita e de qualidade!!! Todos!!

Se nestes 35 anos os sucessivos governos no Brasil tivessem feito seu ‘tema de casa’ – e olha que houve prazo – hoje teríamos orgulho de dizer, de peito estufado: “admire, mundo, nossa nação educadora!” Infelizmente, hoje vivemos sob o jugo da ‘nação usurpadora.’ É difícil, não me entra mesmo na cabeça, tamanha incoerência, um pais tão rico, com uma educação tão desmoralizada, é triste. Greve sim, até o fim.



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