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31 de outubro de 2011

O Seringueiro Fantasma


Naqueles idos já bastante recuados, ainda no tempo do machadinho, antes portanto do advento da faca indiana para corte da seringueira, testemunhamos a seguinte estória:


Após um dia de exaustiva viagem rio acima, o coronel proprietário daquele seringal chegou à casa de um seu compadre, freguês do barracão e seringueiro veterano, há muitos anos fixado naquela colocação com sua família.

Foi acolhido com simpatia de costume para o pernoite, estabelecendo-se depois do jantar uma curta conversação, para separar aquela refeição da hora de dormir, quando seriam recuperadas as forças para a jornada do dia seguinte, que começava mesmo antes do sol nascer. Também o dono da casa acordava muito cedo, para seguir rumo à estrada de seringa em plena selva.

No decorrer daquela palestra, aliás nada erudita, porque girava obrigatoriamente em torno de assuntos de interesse mútuos, como preços de mercadorias, produção e cotação da borracha, pequenos eventos no decorrer da viagem, as possibilidades de avanço no dia seguinte com o rio muito seco, o sucesso de um caçada e outros temas desse gênero, comuns no Acre desde então, o hospedeiro contou a todos os presentes um fato nada verossímil, mas que ele, homem de bons costumes e tido como verdadeiro procurou fazer todos acreditar.

Disse mais ou menos o seguinte:
-Em determinados dias, alta madrugada, quando vou para estrada cortar, ouço à minha frente alguém cortando a minha estrada de seringa, caminhando na mesma direção, à proporção que eu avanço.

-O que, senhor!

-Exato! É porque não sou homem para me intimidar com essas coisas, mas em certos dias isto acontece. Ás vezes, esse alguém vai trabalhando a estrada na minha frente. Eu ouço perfeitamente o ruído causado pelo golpe do machadinho, ferindo as árvores. Amanhã, ele deve cortar... Prosseguindo, afirmou que, no dia que o fantasma trabalhava à sua frente, as seringueiras produziam menos leite. Algumas vezes, o estranho companheiro vinha atrás, isto é, ferindo as árvores já trabalhadas. Em qualquer dos casos, nao ficava a incisão do ferro na árvore.

Pouco depois, com a conversa encerrada os convivas trataram de atar suas redes, para o repouso da noite, pois muito cedo, pela madrugada ainda, todos estariam em movimento, a começar pelo autor da estória.

Cerca de três horas da manhã, ele estava de pé, preparando o café indispensável e conversando uma coisa ou outra com os demais, ainda deitados. A certa altura, após algum tempo de silêncio, chamou o seu amigo e compadre, o homem mais respeitado daquela área. Convidou-o para ir até a cozinha tomar café e pediu que ficasse com o ouvido à escuta. Naquela hora ainda morta da noite, lá vinha o seringueiro errante cortando, exatamente numa volta em que a estrada passava perto da barraca, possibilitando que todos ouvissem o baque característico do machadinho ferindo a seringueira. A perfeita semelhança do real e a duração dos intervalos de uma árvore para a outra e bem assim o número de golpes correspondentes a outras tantas tigelinhas por árvore deixaram bem patenteado que o homem não mentira. Ninguém estava obrigado a aceitar a hipótese de ser o fantasma de um seringueiro desaparecido por aquelas matas - pensaram os que ouviam aquela ruído -, mas havia pelo menos uma perfeita semelhança naquelas pequenas pancadas produzidas por algum exótico habitante da floresta, que já enganara a mais de um seringueiro com esse artifício, pois logo um dos circunstantes recordou que não era a primeira vez que ouvia falar do assunto.

Lembrou-se então de um outro cortador de seringa, homem idôneo igualmente, que trabalhava em uma ilha no Baixo Juruá. Ele contava um caso semelhante e acrescentava ainda que, algumas vezes, o invisível companheiro daqueles ermos, não somente cortava as seringueiras pela estrada, mas de certa distância gritava por ele. A coragem rude de que era portador, conquistada em tantas prolongadas circunstâncias, continuasse o trabalho, em condições normais, mas nunca foi capaz de corresponder ao estentórico apelo, traduzido num grito, que vinha das entranhas da mataria cerrada e escura, em que ambos se encontravam mergulhados.

Muitas conversas, nas beiras de rio, são desse jaez, facilmente verídicas pelos moradores locais, pois são tão frequentes os "causos" sobrenaturais, que, mais um, menos um, não farão absolutamente diferença.



do livro: Estórias Amazônicas. Epaminondas Barahuna. Fundaçao cultural do Estado do Acre, 1998.

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