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6 de julho de 2011

Entre a Espanha e o Acre


Sou gaúcho e respeito e estimo as tradições. Mas quando estava vivendo na Espanha (agora já parece que faz um monte de tempo atrás) e me perguntavam de onde eu era, respondia sempre: - Sou do Acre. Não respondia - sou acreano, mas que sou de lá. Como pertencimento. Já explico.

Aí na Espanha ou em outros lugares na Europa que eu conheci, falar isso para mim era mais divertido. Todo europeu tem uma espécie de fixação pela amazônia. Sem desmerecer, sem nenhuma intenção de desmerecer qualquer estado do sul, mas falar que sou do Rio Grande do Sul não surpreende tanto, não chama tanto a atenção. Gosto muito de contar histórias e em todos os casos, minhas histórias vividas pelo Acre somadas ao tempo no RS fazem que eu tenha o dobro de causos a contar.

Pessoal de fora se interessa muito pelo modo de vida no meio da floresta. Perguntam, se espantam, também se surpreendem. Acham muito interessante quando lhes conto do "mito do esquecimento" que muita gente no Brasil tem ao falar do Acre. Que o Acre não existe, que é invenção, etc. Aos poucos vou contando como é complicado este tema, pois considero muito inusitado dentro de um mesmo país as pessoas acharem que uma parte inteira, um território parte deste país, simplesmente 'não existe'. Isso pelo menos é verdade na cabeça de uma meia dúzia de 'despistados' como é no termo usado lá na Espanha.

Voltando à Espanha, senti lá que a curiosidade do estrangeiro é marcante. Não sabem praticamente nada sobre o Brasil e menos sobre a Amazônia. Mas quando o assunto vem à roda sou inundado de perguntas. Cidades que só se pode chegar em avião ou de barco? Ficar 1 semana dentro de uma barco para chegar a um destino? Descrever fatos da floresta, do cotidiano e da vida dos povos da floresta, falar do mapinguari, da vacina do sapo, das lendas, sempre proporciona uma alegria contagiante, e claro, uma boa conversa.

Conheci muitos amigos e colegas de curso, da Biologia, da Engenharia Ambiental e a esmagadora maioria que eu tive oportunidade de repartir um pouco dos sentimentos e emoções vividos neste cantinho do Brasil, nunca havia escutado ou conhecido histórias assim. Nestas conversas, foi bom ver os paradigmas sendo quebrados e mitos sendo confirmados, ou detalhados - É verdade que existem índios que nunca foram contatados? perguntam. Sim, respondo, mas não são contactados pois não desejam ser descobertos. Por outro lado, existem povos indígenas descobrindo seu próprio passado e recuperando suas tradições, quitadas à força.

E ainda resta 'charla' para perguntas do tipo: - E existe computador no Brasil? - Existe internet lá de onde você vem? Faz muito calor, só faz calor lá né?
E tem gente ainda no Brasil achando que o Acre não existe.

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