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5 de dezembro de 2011

A morte de uma bacaba


A imagem que está aí eu registrei na última semana. É a cena triste de uma bacaba assassinada (uma bacaba, ou abacaba, é uma palmeira). Prostrada ao solo pelo simples fato de possuir frutos. Foi vítima da ganância do homem que, provavelmente não utilizou o vinho produzido dos seus frutos para alimentação sua ou de sua família, e sim, para vender em Cruzeiro do Sul, por 4 ou 5 reais. Foi assassinada, derrubada covardemente por míseros 5 reais. Uma bacaba que poderia seguir produzindo frutos por muitos outros anos, como vinha fazendo por pelo menos 30 anos já. Acontece assim, o camarada interessado em coletar os frutos, fica com preguiça de subir no tronco da palmeira, e com um terçado (facão) põe abaixo a planta para "facilitar" seu trabalho.

Me permitindo um paralelo com nosso cotidiano, este é um fenômeno bastante comum nas relações de economia e natureza. O imediatismo na exploração da natureza faz com que, por exemplo, exista tanta pressão para a modificação do Código Florestal. É o ponto de inflexão quanto ao uso da Floresta. Muitos argumentam que a floresta não tem valor, pois o valor, o rendimento que buscam é um rendimento de curto prazo, imediato. Não pensam no futuro, não planejam a sustentabilidade do futuro. Derruba a floresta, põe soja, põe gado, degrada o solo, e depois que o a terra perde valor, abandona, vende, se livra dela e parte pra outra, outra pedaço de floresta para derrubar e ter lucro imediato.

Não satisfeito em ter que se esforçar um pouco mais para explorar a natureza com inteligência, o sujeito em posse do seu imediatismo, põe abaixo o pé inteiro de bacaba, sem lembrar que seus filhos podem vir a coletar bacabas deste mesmo pé, ou seus netos e bisnetos podem usar os frutos das bacabinhas que iriam nascer deste mesmo pé, sem falar nos animais da floresta que estariam se alimentando dos frutos. Mas precisava ele de 5 reais e a bacaba inteira pagou o preço.

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25 de novembro de 2011

Acreanês




Logo que cheguei aqui não falava muito bem o Acreanês. Compreendia muito bem as pessoas mas elas tinham dificuldades em me compreender. Com o tempo, fui aprendendo expressões e consegui adaptar a velocidade da minha fala à velocidade de fala local. Fiz diversos intensivos e cursos de aprimoramento na língua, incluindo também as expressões típicas, e hoje, passo desapercebido como sendo Acreano.

Algumas expressões são muito típicas e dominá-las determina experiência em diversas situações. Exemplifico com o relato da saída de campo que fiz esta semana, em ida ao rio Croa e visita à comunidade. No deslocamento pelo rio e visita aos comunitários, foi falado, entre outras, as expressões: 'Abicar' que tanto pode ser abicar a canoa na margem, quando abicar, se intrometer na vida do outro. 'nobalde' - "Não se preocupe, que lá estas plantas vão aparecer 'no balde'..." ou seja, muitas, em quantidade. A floresta estava cheia de 'balseiros' - galharia e resto de troncos da queda de uma árvore. "Não adianta nos ficarmos 'bolando' aqui na 'várge' que não vamos encontrar nada", ou seja, ficarmos indo de floresta em floresta dentro da área de várzea que aquela planta não é típica de ali.

Um caso engraçado aconteceu outro dia aqui em casa. Ouvindo o noticiário flagrei o locutor falando. "a prefeitura vai pagar o 13o dos funcionários 'em dias'..." comentei com minha esposa e ela afirmou que isto é correto, pelo menos aqui no Acre. Após um breve e acalorada discussão com ela (que é meu principal motivo de falar tao bem o acreanês), me convenci mas há bem pouco tempo pude complementar meu convencimento lendo o significado de 'em dias' no Dicionário de Acreanês (fonte do significado das palavras acima também), do Gilberto Braga de Mello, que comenta:

Em dias - Trata-se de uma expressão institucional da maior importância. Todo mundo fala: - "O estado vai pagar em dias". E não quer dizer que vão pagar em vários dias, não, ao contrário, pagou pontualmente.(...) Parece que essa aplicação do termo no plural, indevida em outras praças, no Acre confere uma importância especial ao dia do pagamento, dando a ele valor de vários dias, do mês inteiro. Faz sentido.

Realmente faz sentido...


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23 de novembro de 2011

Histórias de rapés II - Rapé é coisa séria.

Assista o vídeo gravado do depoimento do Seu Jorge, do Croa, abaixo de sua famosa samaúma, sobre o uso do rapé. Seu Jorge é um dos mais conhecidos, e queridos, moradores do Croa. É conhecido por ser dono de um coração maior que o mundo e por seu trabalho com a medicina da floresta e como mestre do rapé. Ir ao Croa e não conhecer o Seu Jorge é como não ter ido ao Croa.



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9 de novembro de 2011

Cascas e Polpas (Gibran Khalil Gibran)


Em cada taça de fel que a vida me deu, a última gota era de mel.
No fim de cada subida íngreme que tive que escalar, encontrei uma planície verdejante.
Cada amigo que perdi na neblina do entardecer, encontrei-o na luz da aurora.
E quantas vezes escondi meu sofrimento e meu amargor sob o véu da resignação, acreditando que havia mérito nisso. Mas quando eu retirei o véu, achei que o sofrimento de transformara em satisfação e o amargor em alegria.
E quantas vezes acompanhei meu amigo ao mundo das aparências, julgando-o rude e ignorante. Mas assim que desvendei os mistérios da vida, compreendi que era eu o agressor e ele, o sábio e o cavaleiro.
E quantas vezes, embriagado de egoísmo, comparei-me ao cordeiro e comparei o meu companheiro ao lobo. Mas, quando voltei a mim mesmo, ele era homem e eu outro homem.
Eu e vós, meus semelhantes, somos fascinados pelas aparências e cegos às essências. Se um de nos tropeça, dizemos “é um decaído”. Se se atrasa, dizemos “é um indolente”. Se tartamudeia, dizemos “ é um mudo”. Se suspira dizemos ”é um doente”. Eu e vós, apaixonados pelas cascas do “Eu” e de “Vós”. Por isso, não percebemos o que o espírito escondeu em “Mim” e em “Vós”.

E que podemos fazer para que nossa vaidade não nos distraia de nossa verdade?
Digo que aquilo que vemos com nossos próprios olhos é apenas uma nuvem que nos esconde o essencial. E o que ouvimos com nossos ouvidos é um mero barulho que nos distrai do sentido profundo das coisas. É nossa visão que realmente vê. É nosso coração que realmente ouve. Sigamos sua orientação.
Quando cruzarmos com um policial que leva um homem á cadeia, não presumamos qual dos dois é o criminoso. E quando virmos dois homens, um ensangüentado e outro com manchas de sangue nas mãos, não concluamos qual é o agredido e qual o agressor. E se ouvirmos um homem cantar e outro chorar, paremos antes de concluir qual dos dois é o mais feliz.
Não, meu amigo, não ates as aparências às realidades. E não julgues da essência de um homem pelas suas palavras e seu comportamento.
Talvez aquele que julgues ignorante porque gagueja, possua um pensamento e um coração cheios de luz. Talvez aquele que desprezas pela feiura de seu rosto e a incivilidade de seus modos, seja uma dádiva do céu à terra e um sopro de Deus entre os homens.
Talvez visites no mesmo dia um castelo e um casebre, e saias do primeiro com veneração e do segundo com comiseração. Mas se pudesses rasgar o véu das aparências, tecido por seus sentidos, tua veneração se transformaria em comiseração e tua comiseração em veneração. Talvez encontres, entre o despertar e o ocaso de teu dia, um homem que fala como se a tempestade se exprimisse em sua voz e os exércitos se manifestassem em seus gestos, e outro que fala com palavras tímidas e entrecortadas. E talvez atribuas o heroísmo ao primeiro e a covardia ao segundo. Mas, se os reencontrasse quando a vida os chama para enfrentar os obstáculos ou sacrificar-se a um ideal, saberias que a soberba briosa não é coragem e a timidez calada não é covardia.
E talvez olhes pela tua janela e vejas uma freira e uma prostituta que andam entre os transeuntes, e concluas intempestivamente: “ que nobreza naquela e que indignidade nesta!”. Mas se fechasses os olhos e escutasses o éter falar, ouvirias uma voz te dizer: “ Aquela Me procura pela oração e esta Me procura pelo sofrimento, e na alma de cada uma delas, há um refugio para Minha alma.”
E talvez viajes pelo mundo à procura do que chamas de civilização e progresso e entres numa cidade feita de edifícios altos e palácios suntuosos e institutos modernos e avenidas largas, enquanto seus habitantes, vestidos com esmero, estão em movimento permanente: uns a cavarem a terra, outros a subirem no espaço, outros a dominarem o raio, outros a investigarem os ventos.
Dias depois, talvez chegues à outra cidade de casas humildes e ruas estreitas, enlameada nos dias de chuva, empoeirada nos dias de sol, habitada por um povo primitivo e lento que te olha, parecendo olhar para algo além de ti; e talvez abandones esta cidade, desgostado, pensando: "a diferença que eu vi naquela cidade e nesta é a diferença entre a vida e a agonia: lá uma forca e seu fluxo, aqui a fraqueza e seu refluxo; lá uma atividade que produz primavera e verão, aqui, uma indolência que produz outono e inverno; lá, a ambição e a juventude que dança num jardim, aqui, a decrepitude é velhice deitada ao pó.
Mas se puderes olhar para as duas cidades com a luz de Deus, vê-las-ias duas árvores iguais no mesmo vergel. E, meditando, talvez concluísses que o que te apareceu progresso na primavera, nada mais é que borbulhas luminosas e efêmeras, e que o que te pareceu mediocridade na outra é o reflexo de uma riqueza interior, meditativa e permanente.


Não, a vida não vale pelas suas aparências, mas pelas suas essências. Os frutos não valem pelas suas cascas, mas pela sua polpa. Os homens não valem pelos seus rostos, mas pelos seus corações.
E a religião não vale pelo que se manifesta nos templos e pelos seus ritos e tradições, mas pelo que se esconde nas almas e nas intenções.
A arte não está nas melodias de uma canção ou na vibração verbal de um poema ou nas cores e nas formas de um quadro. A arte esta nas distâncias silenciosas e inspiradoras que separam as notas agudas e graves de uma canção e no que um poema transmite ao coração do que permaneceu inexpresso na alma do poeta. A arte está no que um quadro nos permite imaginar para além de suas dimensões.
Não, meu irmão, as noites e os dias não estão na suas aparências. E eu que na procissão das noites e dos dias estou nestas palavras que te dirijo, mas no que minhas palavras refletem das minhas profundezas mudas.
Não me consideres um ignorante até que examines essas profundezas e não me consideres um gênio antes de despir-me das minhas aparências. Não me digas: “É um generoso”, antes de compreender os motivos de minha generosidade. Não creias em meu amor até sentir-lhe o calor, e não me acuses de frieza antes de tocar minhas feridas sangrentas.

Do Livro Curiosidades e Belezas, Gibran Khalil Gibran.
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4 de novembro de 2011

Mensagem dos Anciões da Nação Hopi


Vocês estão anunciando que esta é a 11º hora.
Agora, regressem e anunciem que esta é a hora.
Algumas questões que devem ser contempladas:
Onde estás vivendo?
O que você está fazendo?
Quais são as tuas relações?
Onde está tua água?
Conheça o teu jardim.
É o tempo de falar a verdade.
Criar a tua comunidade.
Sejam justos uns com os outros.
E não busque um líder fora de ti.
Este poderia ser um bom momento!
Há um rio fluindo rapidamente.
é tão grandioso e suave que muita gente poderá estar assustada.
Tentarão agarrar-se nas suas margens.
Sentirão arrancando-os e sofrerão enormemente.
Saibam que este rio tem o seu destino.
Os anciões dizem que devemos soltar-nos das margens, e empurrar-nos para o centro do rio,
manter os olhos abertos,
e a nossa cabeça por cima da água.
Veja quem está ai contigo e celebre.
Neste momento da história não devemos tomar nada pessoalmente,
sobre tudo a nós mesmos!
No momento em que o realizamos,
nosso crescimento chega a um alto no caminho..
Já passou o tempo do lobo solitário.
Reúnam-se!
Elimine a palavra luta da tua atitude e vocabulário.
Nós somos aqueles que sempre estivemos esperando.

The Elders Os Anciões
Oraibi, Arizona Oraibi, Arizona
Hopi Nation Nação Hopi
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2 de novembro de 2011

2 de novembro


"A vida não cessa. A vida é fonte eterna e a morte é o jogo escuro das ilusões."

Mensagem de André Luiz, 'Nosso Lar'
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31 de outubro de 2011

O Seringueiro Fantasma


Naqueles idos já bastante recuados, ainda no tempo do machadinho, antes portanto do advento da faca indiana para corte da seringueira, testemunhamos a seguinte estória:

Após um dia de exaustiva viagem rio acima, o coronel proprietário daquele seringal chegou à casa de um seu compadre, freguês do barracão e seringueiro veterano, há muitos anos fixado naquela colocação com sua família.

Foi acolhido com simpatia de costume para o pernoite, estabelecendo-se depois do jantar uma curta conversação, para separar aquela refeição da hora de dormir, quando seriam recuperadas as forças para a jornada do dia seguinte, que começava mesmo antes do sol nascer. Também o dono da casa acordava muito cedo, para seguir rumo à estrada de seringa em plena selva.

No decorrer daquela palestra, aliás nada erudita, porque girava obrigatoriamente em torno de assuntos de interesse mútuos, como preços de mercadorias, produção e cotação da borracha, pequenos eventos no decorrer da viagem, as possibilidades de avanço no dia seguinte com o rio muito seco, o sucesso de um caçada e outros temas desse gênero, comuns no Acre desde então, o hospedeiro contou a todos os presentes um fato nada verossímil, mas que ele, homem de bons costumes e tido como verdadeiro procurou fazer todos acreditar.

Disse mais ou menos o seguinte:
-Em determinados dias, alta madrugada, quando vou para estrada cortar, ouço à minha frente alguém cortando a minha estrada de seringa, caminhando na mesma direção, à proporção que eu avanço.

-O que, senhor!

-Exato! É porque não sou homem para me intimidar com essas coisas, mas em certos dias isto acontece. Ás vezes, esse alguém vai trabalhando a estrada na minha frente. Eu ouço perfeitamente o ruído causado pelo golpe do machadinho, ferindo as árvores. Amanhã, ele deve cortar... Prosseguindo, afirmou que, no dia que o fantasma trabalhava à sua frente, as seringueiras produziam menos leite. Algumas vezes, o estranho companheiro vinha atrás, isto é, ferindo as árvores já trabalhadas. Em qualquer dos casos, nao ficava a incisão do ferro na árvore.

Pouco depois, com a conversa encerrada os convivas trataram de atar suas redes, para o repouso da noite, pois muito cedo, pela madrugada ainda, todos estariam em movimento, a começar pelo autor da estória.

Cerca de três horas da manhã, ele estava de pé, preparando o café indispensável e conversando uma coisa ou outra com os demais, ainda deitados. A certa altura, após algum tempo de silêncio, chamou o seu amigo e compadre, o homem mais respeitado daquela área. Convidou-o para ir até a cozinha tomar café e pediu que ficasse com o ouvido à escuta. Naquela hora ainda morta da noite, lá vinha o seringueiro errante cortando, exatamente numa volta em que a estrada passava perto da barraca, possibilitando que todos ouvissem o baque característico do machadinho ferindo a seringueira. A perfeita semelhança do real e a duração dos intervalos de uma árvore para a outra e bem assim o número de golpes correspondentes a outras tantas tigelinhas por árvore deixaram bem patenteado que o homem não mentira. Ninguém estava obrigado a aceitar a hipótese de ser o fantasma de um seringueiro desaparecido por aquelas matas - pensaram os que ouviam aquela ruído -, mas havia pelo menos uma perfeita semelhança naquelas pequenas pancadas produzidas por algum exótico habitante da floresta, que já enganara a mais de um seringueiro com esse artifício, pois logo um dos circunstantes recordou que não era a primeira vez que ouvia falar do assunto.

Lembrou-se então de um outro cortador de seringa, homem idôneo igualmente, que trabalhava em uma ilha no Baixo Juruá. Ele contava um caso semelhante e acrescentava ainda que, algumas vezes, o invisível companheiro daqueles ermos, não somente cortava as seringueiras pela estrada, mas de certa distância gritava por ele. A coragem rude de que era portador, conquistada em tantas prolongadas circunstâncias, continuasse o trabalho, em condições normais, mas nunca foi capaz de corresponder ao estentórico apelo, traduzido num grito, que vinha das entranhas da mataria cerrada e escura, em que ambos se encontravam mergulhados.

Muitas conversas, nas beiras de rio, são desse jaez, facilmente verídicas pelos moradores locais, pois são tão frequentes os "causos" sobrenaturais, que, mais um, menos um, não farão absolutamente diferença.



do livro: Estórias Amazônicas. Epaminondas Barahuna. Fundaçao cultural do Estado do Acre, 1998.
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30 de outubro de 2011

A Palmeira Imperial de Elche, Espanha


Dos 456 ha de palmeirais existentes na Espanha, 85% do total estão em uma única cidade.Elche é impressionante. Tive a oportunidade de conhecer esta cidade neste ano de minhas andanças pela Espanha. Na verdade deste o primeiro momento que pesquisando sobre palmeiras conheci a existência desta cidade, me veio uma vontade indescritível de caminhar por meio seus palmeirais, respirar o ar semi-desértico de um oásis verdadeiro, e conhecer, principalmente, a ‘Palmeira Imperial de Elche’. Aqui vou falar um pouco deste exemplar, da história deste palmeiral e um pouco deste dia inesquecível na minha vida.

A “palmeira imperial de Elche” é uma tamareira, um “dátil” em espanhol, assim como o quase meio milhão de outras tamareiras que existem por toda a cidade. Tamareiras sem fim, uma quantidade que impressiona, estão por todas as partes e de todos os tamanhos e idades. Estão organizadas em jardins e hortos, particulares ou públicos e fazem com que a cidade em si seja um verdadeiro oásis. A abundância e importância destas palmeiras em Elche transformam sua existência no símbolo da cidade, e uma visita nos permite mergulhar em uma verdadeira união simbiótica entre a selva de palmeiras e elementos urbanos como prédios e ruas.

Se pode estar ali e nos permitir uma viagem no tempo, e assim observar os primeiros fenícios a plantar os primeiros exemplares. Depois, acompanhar os árabes que modificaram a estrutura da cidade, construindo imensos canais de irrigação, que traziam água do rio Vinalopó para os hortos, ampliando a cultura das tamareiras e iniciando a tradição agrícola de produção de tâmaras. Também por alí passaram os romanos e muitos séculos depois, hoje o ‘Palmeiral Europeu’, como é reconhecido, é um patrimônio botânico mundial, sem dúvida. Os primórdios da conservação vegetal tem parte de sua história na região de Elche, já que em 1265 o Rei Jaime I de Aragão de Espanha já havia mandado proteger o palmeiral e garantir sua preservação. As imponentes tamareiras resistiram bravamente à Guerra Civil Espanhola, ainda que tenham caído em completo abandono até o ano de 1983, quando decretos da Comunidade Valenciana novamente puseram a beleza deste inigualável tesouro botânico nas pautas de restauração e preservação.

Elche é mesmo cercada de história e mitos. Parte fundamental desta história diz respeito ao descobrimento da “Dama de Elche”. Uma estátua de um busto feminino, que não se sabe com certeza se era uma santidade fenícia ou de uma outra época mais remota. Um mistério que encanta. Conheci a original desta estátua no Museu do Prado em Madrid, e de princípio não liguei a estátua de lá com a seu local de descoberta. Quando me dei conta procurei saber mais do mistério. Foi em 4 de outubro de 1897 que um menino campesino desenterrou a estátua do solo, em perfeitas condições de conservação. Hoje este símbolo da cultura ibero espanhola esta reproduzida em diversos locais da cidade, e é cultuada como uma deusa misteriosa.

Entretanto, a dama protagonista desta magnífica cidade, não é a “Dama de Elche” e sim, aPhoenix dactylifera, que é o nome científico da tamareira. As tamareiras são originarias do Irã e norte da África e podem atingir 30 metros de altura. Por toda a cidade existem exemplares muito antigos com mais de 150 anos. Em nenhum outro lugar da cidade o cuidado e a tradição botânica se destacam tanto quanto no conhecido “Horto del Cura”. Ai existe um coleção esplêndida de exemplares vegetais de todo o mundo, com destaque para os cactos e outras palmeiras, mas também pés de romãs, limoeiros, laranjeiras, espécies típicas do mediterrâneo espanhol, condicionados exatamente como faziam os árabes, 700 anos antes. Elche é uma viagem no tempo.

Na minha pesquisa sobre palmeiras, destacou-se a referência sobre a “palmeira imperial de Elche” e assim fiquei curioso em conhecê-la. Esta palmeira está localizada no tal “Horto del Cura”. Este curioso exemplar tem uma idade aproximada de uns 200 anos e estimam seu peso em 10 toneladas. Do seu estipe principal brotam 8 braços, que nasceram com uma sincronização singular em altura e idade, de maneira que esta chamada “Palmeira Imperial” é um exemplar único em sua espécie.

A “palmeira imperial” levou este nome depois da visita da Imperatriz Elisabeth de Áustria – a Sissi. Muitos botânicos ao longo dos tempos fizeram romarias até Elche para conhecer a Palmeira. Eu fui só mais um.

Buenas que assim, depois de um dia de praia em Murcia me bandeie para os lados de Elche para conhecer a dita “palmeira imperial”. O transporte é trem e bem cedo cheguei na cidade. Infelizmente, não consegui deixar minha mala em nenhuma parte. Por conta dos episódios de terrorismo é impossível encontrar qualquer guarda-malas em qualquer cidade espanhola. O inconveniente foi caminhar por toda a cidade puxando uma mala (com alça e rodinhas, hehe), o que me atrasou um bocado e me fez chegar no momento exato em que estava fechando o Horto del Cura.

Caminhar pela cidade parece ser fácil, mas não é. Apesar de plana e muito sombreada graças às palmeiras, o clima mediterrâneo árido seca a boca e a pele, e te coloca em um estado de cansaço muito mais rápido. Embora eu não estivesse caminhando no deserto mas em um oásis, mesmo assim fiquei um pouco desnorteado e acabei me perdendo. Isso me fez caminhar por ruas e acessos que acredito nenhum turista com boa cabeça vai... mas estava lá, com minha mala de rodinhas, sem água e procurando pela palmeira imperial exatamente como em um deserto, um perdido procura por um oásis e por água.

Já de muito tendo alucinações resolvi parar em um café com internet para pesquisar um mapa e uma maneira de chegar até o Horto del Cura. Saciei a minha sede (tomando um expresso sem açúcar, logicamente) e na internet descobri que me encontrava no outro lado da cidade e que o horto fecharia em 15 minutos. Instantaneamente meu coração disparou, comecei a suar frio só de pensar que meu objetivo sonhado havia quase um ano não haveria de se cumprir. Mais do que depressa pedi à garçonete que chama-se um taxi, e sem esconder meu nervosismo pedi ao taxista que voasse até o Horto del Cura.

O taxi parou exatamente em frente ao Horto, e enquanto pagava e tirava minha mala, com rodinhas, de dentro do porta malas, já gritava sem meios modos desde o carro para que não fechassem o portão – um homem iniciava o fechamento do mesmo. Justo na frente do portão, como não haveria de ser diferente, em meio à lágrimas e súplicas falando que era brasileiro, biólogo e que vinha do Brasil somente para ver a Palmeira e que já estava de passagem marcada par ir embora e etc., apareceu uma dona que parecia ser a gerente, diretora, sei lá e me permitiu que eu entrasse por 5 minutos, pois a noiva estava para chegar... é meus amigos, estava quase perdendo para um casamento, mas consegui e me alegro muito até hoje em recordar do meu feito. Ao entrar, quase pisei no tapete novinho da entrada dos noivos (imagino o que teria me custado isso...) e me dirigi, escoltado por dois seguranças, até o local da palmeira.

Primeira fotografia que se conhece da palmeira imperial, provavelmente em 1840 e 1845, ao lado dela o seu proprietário original D. Capellán Castaño.

Ano de 1900 (?)

Ano de 1910.
Ano de 1915.

Ano de 1921.

Ano de 2011.

Minha primeira sensação foi de estupefaciamento. Fiquei mínimo diante dela, quase desapareci. Tremendo, quase não coordeno os diversos meios de registro que levei, e, justo nestas ocasiões, quando a maioria deles falha (percebi que a bateria da câmera fotográfica havia acabado) pude me regozijar na admiração deste monumento vivo. Gravei um trecho no iPod e reproduzo abaixo. Depois, controlando a respiração aproveitei os últimos três minutos para observar detalhadamente a planta, de fato concluída a missão, virei a costas e sai do Horto, agradecendo de coração a boa vontade das pessoas que me permitiram entrar. Na saída ainda cumprimentei a família dos noivos que chegavam em um Rolls-Royce.

Depois daí Elche foi diferente. Comemorei minha aventura em um parque, abaixo da sombra de tamareiras, claro, comendo batata-frita e tomando uma meia dúzia de Estrella Galicia. Certamente um dia memorável.

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27 de outubro de 2011

Lembranças do Parque Estadual de Itapuã - Rio Grande do Sul




Consegui reproduzir estes diapositivos com um método bem caseiro, a reprodução não ficou boa, concordo... mas para matar a saudade de Itapuã já estão valendo. O Parque Estadual de Itapuã é um lugar sagrado para mim. Passei muitos momentos bons da minha infância e juventude por alí. Acampamentos, caminhadas, revigorantes banhos no Guaíba e na Laguna dos Patos, falo com nostalgia pois foi um tempo em que trabalho, ativismo, diversão e aventura andavam juntos. Depois de muito tempo fechado à visitação, hoje é possível visitá-lo, graças ao trabalho de ONG's, entre elas a mais importante, a Comissão de Luta pela Efetivação do Parque Estadual de Itapuã, entidade que nao existe mais pois o Parque foi efetivado. Esta Entidade foi um dos motivos da meu ingresso para cursar Biologia na UFGRS e também, durante anos, foi para mim uma escola de ativismo ambiental e conservação. Ficam aí algumas imagens para registrar e relembrar estes tempos.

Vista desde o mirante do Morro da Fortaleza para a Laguna dos Patos.

Butiá no Morro da Grota, provavelmente nem existe mais.

Uma paisagem de pedras incomum em uma das praias do Guaíba.

Praia das Pombas.
Praia do Tigre, pra mim sempre foi a praia mais linda de todas.
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25 de outubro de 2011

Limpando o MacMini




Meu Mini vinha reclamando com um barulho agonizante e do nada apagava. Fiz uma limpeza ha um tempo atrás somente nos seus respiradores mas nao adiantou e o problema continuou. Daí criei coragem. Me armei com uma faca de cozinha, das grandes, e meti no Mini, pelo cantinho com cuidado claro, seguindo o que vários sites recomendavam e muito fácil pude abri-lo, assim então comecei a limpeza. O bichinho estava sujo mesmo, não me impressiona que estivesse toda hora apagando. Abaixo algumas imagens do processo.





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16 de setembro de 2011

PHD COMICS

Gosto muito do site de charges www.phdcomics.com  e nesta minha pilha de doutorado vem bem a propósito o humor...rs




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11 de julho de 2011

Carta de recusa do 19º Prêmio Brasileiros de Valor 2011 - Profa. Amanda Gurgel

O PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais fez hoje à noite a entrega do 19º Prêmio Brasileiros de Valor 2011 – Por um Brasil Ético e Eficiente. Eleita como “Educadora de Valor”, pela “manifestação contra a incúria do governo em relação à educação e aos maus tratos aos seus protagonistas, demonstrando corajosamente toda a sua indignação aos governantes”, a professora Amanda Gurgel recusou a distinção.
Em carta, Amanda Gurgel explica seus motivos. Confira:“Natal, 02 de julho de 2011Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald’s, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficie nte e sem perder de vista sua finalidade.Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.Saudações,Professora Amanda Gurgel”.
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6 de julho de 2011

Entre a Espanha e o Acre


Sou gaúcho e respeito e estimo as tradições. Mas quando estava vivendo na Espanha (agora já parece que faz um monte de tempo atrás) e me perguntavam de onde eu era, respondia sempre: - Sou do Acre. Não respondia - sou acreano, mas que sou de lá. Como pertencimento. Já explico.

Aí na Espanha ou em outros lugares na Europa que eu conheci, falar isso para mim era mais divertido. Todo europeu tem uma espécie de fixação pela amazônia. Sem desmerecer, sem nenhuma intenção de desmerecer qualquer estado do sul, mas falar que sou do Rio Grande do Sul não surpreende tanto, não chama tanto a atenção. Gosto muito de contar histórias e em todos os casos, minhas histórias vividas pelo Acre somadas ao tempo no RS fazem que eu tenha o dobro de causos a contar.

Pessoal de fora se interessa muito pelo modo de vida no meio da floresta. Perguntam, se espantam, também se surpreendem. Acham muito interessante quando lhes conto do "mito do esquecimento" que muita gente no Brasil tem ao falar do Acre. Que o Acre não existe, que é invenção, etc. Aos poucos vou contando como é complicado este tema, pois considero muito inusitado dentro de um mesmo país as pessoas acharem que uma parte inteira, um território parte deste país, simplesmente 'não existe'. Isso pelo menos é verdade na cabeça de uma meia dúzia de 'despistados' como é no termo usado lá na Espanha.

Voltando à Espanha, senti lá que a curiosidade do estrangeiro é marcante. Não sabem praticamente nada sobre o Brasil e menos sobre a Amazônia. Mas quando o assunto vem à roda sou inundado de perguntas. Cidades que só se pode chegar em avião ou de barco? Ficar 1 semana dentro de uma barco para chegar a um destino? Descrever fatos da floresta, do cotidiano e da vida dos povos da floresta, falar do mapinguari, da vacina do sapo, das lendas, sempre proporciona uma alegria contagiante, e claro, uma boa conversa.

Conheci muitos amigos e colegas de curso, da Biologia, da Engenharia Ambiental e a esmagadora maioria que eu tive oportunidade de repartir um pouco dos sentimentos e emoções vividos neste cantinho do Brasil, nunca havia escutado ou conhecido histórias assim. Nestas conversas, foi bom ver os paradigmas sendo quebrados e mitos sendo confirmados, ou detalhados - É verdade que existem índios que nunca foram contatados? perguntam. Sim, respondo, mas não são contactados pois não desejam ser descobertos. Por outro lado, existem povos indígenas descobrindo seu próprio passado e recuperando suas tradições, quitadas à força.

E ainda resta 'charla' para perguntas do tipo: - E existe computador no Brasil? - Existe internet lá de onde você vem? Faz muito calor, só faz calor lá né?
E tem gente ainda no Brasil achando que o Acre não existe.

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30 de junho de 2011

Poema A Barcelona de Jacinto Verdaguer


POEMA A BARCELONA
(Jacinto Verdaguer)




(fragmentos)

Cuando te miro en la falda de Montjuïc sentada, me parece verte en los brazos del gigantesco Alcides que por proteger a la hija de su costado nacida transformándose en sierra se hubiese quedado aquí.

Y al ver que siempre sacas rocas de sus montañas para tu caserío, que crece cual árbol en sazón, parece que le diga a las olas y al cielo y a las montañas: ¡Miradla; carne de mi carne, y ya tan mayor!


Para que tus naves, que vuelven con alas de golondrina, hacia el Cap-del-Riu, a la sombra no vayan a encallar, él levanta todas las noches un faro con su mano derecha y por guiarlas entra andando en el mar.

El mar duerme a tus plantas besándolas cual vasalla que escucha de tus labios el código de sus leyes; y si dices «¡atrás!», hace sitio a tu muralla como si Marquets y Llances aún fuesen sus reyes.

Al nacer amazona, de murallas te coronaste. Mas pronto tu crecimiento rompió el estrecho tres veces te lo ceñiste, tres veces 10 rompiste, saltando por encima del recinto de piedra cual un león.


¿Por qué atarte los brazos con ese cinto de torres? No cuadra a una matrona la faja de los niños; es mejor que las derribes de un manotazo, y las borres. ¿Ciclópeas murallas quieres? Dios te las da mejores.

Dios te las da de una hilera de cimas que te coronan, gigantes de la marina de los de montaña al pie, de firmes de uno en otro las ásperas manos se dan, formando a tus espaldas un nuevo Pirineo.


Con Montealegre encaja Nou-pins; con Finestrelles, Olorde; con Collserola, Carmel y Guinardons; los lechos de los ríos que siegan ese muro son las puertas; Garraf, Sant Pere Martir y Mongat, los torreones.

El alto Tibidabo, roble que a sus plantones domina, es la soberbia acrópolis que domina a la ciudad; el agudo Montcada, un hierro de lanza gigantesca que una estirpe de héroes allí clavada dejó.

Sean ellos los eternos términos de tus ensanches; los ruinosos muros ofrécelos, a pedazos, al mar, en donde de un puerto sin medida serán los anchos brazos que puedan un bosque de naves aprisionar.

Como tú, devoran ribazos y campos, y se tornan pue las alquerías que te rodean, ciudades los caseríos, como niñas hacia sus madres corriendo a grandes ¿a dónde llevarán sus aguas los ríos, sino al mar?

Y creces y te derramas; cuando la planicie te falta trepas por las laderas amoldándote a sus vertientes; en todas las que te rodean un barrio tuyo se esparce que, ola tras ola, hacia arriba tú vas empujando.

Gigantes que hacia la serranía hoy tus brazos tiendes, cuando allí llegues mañana, ¿qué harás? Harás como una inmensa hiedra que, abrigando las tierras, sube a ceñir un árbol del bosque con cada brazo.


¿Ves extenderse a Poniente un prado de esmeralda? Otro Nilo lo forma con sus arenas de oro, donde, si no te basta la falda de Montjuic, podrían ensancharse tus tiendas y tu corazón.

Aquellas verdes riberas floridas que dora el sol, Sant Just Desvern, al que sombrean naranjos y pinos, los bosques de Valldoreix, de Hebron y Valldaura, tejen tu futura corona de jardines.

¿Y esa bandada de pueblos que viven en la costa? Son ninfas catalanas que vienen a abrazarte, blancas gaviotas que el viento del siglo acerca para que con tus alas de águila las enseñes a volar.


Un día, La Murtra, la Verge del Port, la Bonanova serán tus templos, si son ahora el nido de tus amores; los Agudells, mudando en blanco su verde ropaje, inclinarán sus te~tas para ser tus miradores.

Uncidos querrían besar tus pies con sus olas, esclavos de tu grandeza, Besòs y Llobregat, y ser de tus reductos avanzadas troneras los pechos de Cataluña, Montseny y Montserrat.


Entonces, temiendo entonces que los quieras por cabecera, volviendo los ojos a los Alpes, el Pirineo vecino preguntará, secándose la blanca cabellera, si el París del Sena aquí se trasplantó. (…)

-Adelante, ciudad de los Condes, de río a río extendida ya, adelante, hasta donde tope tu nave con el Omnipotente; te arrebataron la corona; mas no el mar; del mar aún eres reina; tu cetro es un tridente.

El mar, un día de tu poder esclavo, te llama, cual dos portones abriéndose Suez y Panamá: cada uno con una India riente te invita, con Asia, las Américas, la tierra y el océano.

No te arrebataron el mar, ni el llano ni la montaña que se levanta a tu espalda como un manto, ni ese cielo que un día fuera mi tienda de campaña, ni ese sol que un día fuera faro de mi nave;

ni el genio, esa estrella que te guía, ni esas alas, la industria y el arte, prendas de un bello porvenir, ni ese dulce aroma de caridad que exhalas, ni esa fe… ¡y un pueblo que cree no puede morir!


Aún tiene tu cielo todas sus fl0res diamantinas; sus héroes tiene la patria, sus liras el amor; aún Clemencia Isaura rosas y englantinas da cada primavera como presente al trovador.


Tu espléndido presente de nuevos tiempos es aurora; soñando hojea el libro del pasado; trabaja, piensa, lucha, mas cree, aguarda y reza. Quien levanta o hunde los pueblos es Dios, que los creó.

Versión de José Batlló

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