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4 de novembro de 2009

Personalidade: Nilson Mendes




Há exatos dez anos atrás:

O Nilson Mendes (na foto ao lado, acessada desta reportagem aqui, que conta um pouco sobre ele), foi o responsável pela minha vinda definitiva para o Acre. É. Você não sabia desta história? Pois foi assim mesmo..(sempre conto para todos os meus alunos no primeiro dia de aula, como eu vim parar no acre e tal).

Pois então, em 1999, estava eu, recém formado biólogo, em um encontro na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. No Congresso nacional de etnoecologia e etnobotânica. Lá, assisti uma palestra do Nilson, sobre Manejo Florestal. Adorei a palestra, o jeitão dele, e as histórias da vida dele no Acre. Ao fim da palestra fomos tomar uma cervejinha na beira do rio que passa ali em Pira, e conversa vai conversa vem falei que ia visitá-lo logo logo, e perguntei como podia fazer isso. Ele a princípio não acreditou, mas me deu as dicas, enfatizando que eu tinha que ir ao INCRA pedir autorização e tal.

Assim, comecei a amadurecer a idéia, e logo um ou dois meses depois, com as dicas do meu amigo Postigo, estava desembarcando aqui, na capital do Acre. Ao chegar no aeroporto, peguei um ônibus até o Casa do Seringueiro, dica do Postigo para passar a noite e me informar como chegar no Seringal Cachoeira, reserva extrativista onde nasceu e passou grande parte da juventude o Chico Mendes e onde o Nilson mora. A Casa do Seringueiro ficava onde hoje está o Café do Memorial dos Autonomistas, naquela esquina alí. Chegando lá, me falaram que para chegar em Xapuri e no Seringal Cachoeira devia ser de ônibus mas antes teria que passar no INCRA e conseguir autorização. Eu bem sem grana, fui ao prédio do lado, que hoje é a Biblioteca Pública (muito linda por sinal, acabei de conhecer) pedir apoio. Consegui apoio, um táxi que me levou até o INCRA, uma cartinha de recomendação, uma estadia de hotel, refeição para aquela noite e de quebra, um botton do governo (aquele botton da arvorezinha).

Por ali, na praça ao lado da atual Biblioteca, ficava a casa dos povos da floresta. Lá comprei um livrinhos e conheci um senhor que me deu a dica de um trabalho na Barquinha, naquela mesma noite. E lá fui eu conhecer a Barquinha, que foi maravilhoso, muito legal mesmo. No outro dia, no INCRA, fui recebido pelo diretor, em reunião super formal e ele me deu de próprio punho, autorização para circular na Reserva. Depois dali, caminhei até o segundo distrito, local da estação rodoviária e me toquei pra Xapuri. Viagem interessante, mas estava preocupado, pois ao longo de toda a estrada só via mesmo era gado e pasto, gado e pasto - me perguntava: aonde está a floresta???

Em Xapuri, conheci a casa do Chico e pedi, na casa da associação dos trabalhadores rurais, abrigo para passar a noite, que fui de pronto atendido. Dia seguinte, partia o caminhão caçamba até o Seringal, e lá fui eu, junto com vários moradores, sacolejando três horas em cima do caminhão. Ali eu já pensava, aqui começa minha aventura. Chegando no Seringal, Projeto de Assentamento Agro-extrativista (PAE) Chico Mendes, de pronto uma festa. Não lembro bem o motivo, mas tinha forró, sanfona..pensei, estou em casa! Peguei um triângulo e um copo de pinga e cai no bailado. Pouco tempo depois chegou o Nilson, na verdade ele havia chegado de viagem de São Paulo naquela mesma semana! Quase nos desencontramos. Ele ficou surpreso em me ver, imagine. Ai falei: - Eu disse que vinha, pois aqui estou!. Logo ele me levou para casa dele, a família não estava, mas nos arranjamos almoçando na casa dos parentes e amigos. Na noite, na rede, quase não dormi com os morcegos cagando na minha cabeça; é primeira noite no seringal ninguém esquece.

E assim foram dez dias acompanhando o Nilson pra cima e pra baixo. Conheci diversos amigos, primos e irmãos dele. Ouvi muitas histórias (algumas até já publicadas aqui no Blog, como a do jogo da onça), caminhei muito na floresta, participei com eles de atividades de manejo florestal, marcando parcelas, identificando árvores. Fui à caça! Me perdi em uma estrada de seringa, passei a manhã perdido! Tive medo da pico-de-jaca. Joguei bola com a criançada. Caminhei mais um tanto na floresta. Tomei vários banhos de igarapé. Enfim, tudo, total imersão no modus vivendi seringueiro.

O que mais me marcou foi o fato que eu emburreci do nada. Fiquei totamente ignorante. Eu, recém formado em Biologia, no meio de vários seringueiros, me senti o cara mais burro no mundo. Não conseguia falar nada, colocar uma opinião, nada, dar um palpite. As pessoas transpiravam floresta, respiravam floresta, falavam da floresta 24hs por dia e eu só sorvendo aquele conhecimento. Na verdade, sei lá, 70% ficou lá, não tive condições de absorver, era muita coisa para um ser-humano-citadino só. E ao mesmo tempo, aprendi muito, muito mesmo, quase tudo ainda lembro, está gravado dentro do meu íntimo. Graças ao Nilson, às pessoas que conheci no seringal Cachoeira em final de 1999, hoje estou aqui, morando aqui. Lá, pouco antes de ir embora, ouvindo a Dona Cecília contar a história do Chico, sentadinho no mesmo lugar em que o Chico, quando pequeno, sentava, tomando o cafezinho doce que só no seringal tem. No mesmo lugarzinho aonde o Chico aprendeu a ler e escrever mais tarde. Sentado lá eu prometi pra mim mesmo, é aqui, é aqui que eu ei de trabalhar e de viver. Pronto pra ir embora, desatei a chorar, chorei pois minha maior lição ali foi reaprender a olhar, olhar igual aos olhares deles, olhares sem maldade, puros, olhares até hoje marcados na minha memória.

Obrigado Nilson, obrigado por me ensinar tudo que me ensinou lá, por continuar ensinando tanta gente a gostar, amar a floresta, por me fazer ver a humildade do povo da floresta e por me trazer até aqui. Um dia nos encontraremos de novo.

Rio Branco, 4 de novembro de 2009.

3 comentários:

Elis Zampieri disse...

Boas histórias pra contar aos netos. E a vida é isso e nao vale nada se a gente não tem uma boa história pra contar...

Abraço, Elis.

Thalyta França disse...

opa! obrigada :]
atualizei hj...

EAD/JOYCE disse...

Emocionante sua história, linda mesmo.

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