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27 de março de 2009

Acreano ou Acriano: defensores da antiga grafia pretendem levar polêmica à ABL

Local: São Paulo - SP
Fonte: Amazonia.org.br
Link: http://www.amazonia.org.br

Desde o dia 1º de janeiro de 2009 entrou em vigor a novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, firmado por integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A decisão teve rejeição pela maioria da população lusitana e no Brasil o debate passou quase despercebido. Quase: no Acre o debate ganhou destaque e chegou à Assembléia Legislativa do Estado. O motivo de tanta polêmica é que os acreanos se recusam a serem chamados de "acrianos", conforme a nova regra gramatical.

Antes do acordo as duas formas eram consideradas corretas, apesar da grafia oficial (acreano) ser considerada como "menos adequada" pelo dicionário Aurélio. Segundo a nova gramática "escrevem-se com i, (e não com e) antes da sílaba tônica os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense".

"Eu tenho 44 anos e desde que nasci sou acreana. Em nosso hino usamos, tanto na escrita quanto na fala acreano", comenta a deputada estadual Perpetua Almeida, que organiza um fórum para levar a proposta à Academia Brasileira de Letras [ABL]. A parlamentar aderiu à causa após a publicação diária de artigos na imprensa regional sobre a mudança do gentílico, feito por especialistas, jornalistas e políticos.

Segundo ela, esse comitê pretende ser ampliado, mas já no primeiro encontro contou com a participação do presidente da Assembléia Legislativa do Acre, Edvaldo Magalhões (PC do B), do presidente da Academia de Letras do Acre, Clodomir Monteiro, além de representantes do Sindicato dos Jornalistas, da Fundação Cultural do Estado, do Tribunal de Justiça e da Universidade do Estado.

"Vamos manter um blog para as pessoas aderirem ao fórum de defesa da nossa acreanidade", explica a deputada. O comitê irá organizar uma comitiva de políticos e intelectuais para discutir o assunto e propor a aceitação do termo acreano como também sendo correto.

Perpetua comenta que garantir a grafia com também sendo oficial é a forma de garantir a cultura e raízes daqueles que sempre brigaram para serem brasileiros. "Somos um Estado que tem a luta e a resistência no sangue, enfrentamos outro país, porque nos considerávamos brasileiros. Fizemos enfrentamento, até que o Brasil nos aceitasse", justifica.

Outro defensor da causa é Antonio Alves, jornalista e assessor especial do governador do Acre, Binho Marques. Alves afirma que o Acre já viveu cem anos de solidão e "foi "descoberto" recentemente, depois da morte do Chico Mendes. "Nosso isolamento secular criou uma identidade, uma história e várias manias. Agora querem nos tirar tudo, nos incluir numa globalização sem identidade, nos pasteurizar", conta.

Imprensa acreana e acriana
Assim que a reforma ortografia passou a valer, a maioria dos jornais do Estado adotou o novo termo. Com exceção do jornal A Gazeta, todos os outros veículos, incluindo a Agência de Notícias do Governo do Estado adotou a nova grafia.

"Liguei para os jornais e perguntei 'porque vocês estão escrevendo com i?', eles disseram 'não sei... não está decidido que tem que ser assim?", comenta a deputada Perpetua que conseguiu o apoio do próprio Governador Binho Marques, que aderiu ao movimento e solicitou que a estatal Agência de Notícias não escreva mais 'acriano'. O jornal A Tribuna também entrou em acordo com a proposta e pretende grafar o gentílico da forma antiga.

"Nós fazemos a língua"
Não é só o Acre que passou por polêmicas gramaticais. O Estado da Bahia já esteve em situação parecida, quando os baianos pediram para que fosse mantida a letra 'h' no nome do Estado ao invés da sugestão de reforma da época que alterava para Baia. Segundo Perpetua este é um exemplo de que o povo é quem faz a língua.

Antonio Alves concorda com a opinião e afirma que é preciso respeitar as específicidades regionais que existem na língua. "Os linguistas nem conhecem o "português" que falamos! Sabem o que é descer de bubuia? Já viram um estrupício? Andaram num varadouro (caminho aberto na mata)? Ora, nós nos identificamos como acreanos. Gostamos do "e", não gostamos do "i". Nós fazemos a língua, eles fazem a regra".

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