10 de janeiro de 2009

Histórias de Rapés



A idéia de escrever este post contando a história de alguns rapés veio ontem a noite, eu muito gripado que estou, pedi a minha esposa que me aplicasse uma boa dose de rapé para ver se desopilava um pouco e me aliviava o nariz. E foi perfeito !! Instantâneo !! Claro, coloquei tudo pra fora, durante algum tempo, mas o objetivo é esse mesmo. Dai que eu fui catando todos os tipos de rapé que já ganhei, e coloquei em uma folha branca. O resultado vocês estão vendo abaixo. Ainda não estão todos ai, mas já dá pra se ter uma idéia da variedade, da diversidade de cores, texturas e padrões encontrados.

Já havia postado aqui fotos do pajezinho Haru aplicando rapé em mim. E é dele a autoria de dois dos rapés que estão na imagem mais abaixo. É difícil encontrar algum Katukina ou Kontanawa, que não tenha um potinho com rapé. Mas o Haru está chegando na especialização, rumando à perfeição. Em algumas ocasiões, ele conta que é necessário uma total imersão na floresta, incluindo longos dias de jejum, jornadas solitárias e muita concentração e chamadas espirituais. Para nossos vizinhos indígenas, o rapé é uma complementação do universo de trabalhos e ritos espirituais, sendo aliado nos rituais da Ayahuasca e naqueles do Sapo Kambô ou Kampô, Vacina do Sapo.

E afinal, como faz o rapé? Como fazer rapé? Bom, cada mestre rapezeiro tem o seu processo próprio, mas, a princípio, se reduz a pó a casca ou a folha que desejar incluir, e mais um pouco de tabaco para "ativar" os receptores ao nível do epitélio nasal. Para redução a pó usualmente se "assa" a casca ou folha. Ou seja, deve-se desidratar, tipo "obtenção do peso seco" das aulas de fisiologia vegetal, depois em um cadinho ou instrumento similar, triturar até o máximo de fino possível. Muitos rapés são mistos de dezenas de espécies vegetais, outros, somente uma espécie e um pouco de tabaco. Alguns rapés não se utilizam de tabaco, são puros. Para aqueles que tem alergia ao tabaco ou mesmo desejam não ter contato com ele, estes são os melhores. Lembrando que o tabaco utilizado é sabiamente escolhido pelos mestres do rapé. O tabaco, que é chamado na região de Porronca, tem várias origens, ao longo do Rio Juruá, e obviamente, alguns se destacam pela qualidade e pela pureza, entretanto, quase a totalidade senão todos, são orgânicos, ou seja não levam venenos, pesticidas, herbicidas, defensivos ou outro produto de infame sinônimo na sua produção. Algumas plantas já tem seu uso como rapé bem difundido, como a casca do jatobá, a sansara, a raiz de cachorro e a casca da copaíba.

Um dos rapés mais poderosos produzidos é aquele da tradição Katukina, que, junto às plantas tradicionais, ou mesmo, só ao tabaco, é incluído o pó da resina do sapo Kambô (!!!). Não tem como não cair, como não vomitar, como não, como não(...)!
Dai que eu, com o pouco de experiência acumulada, pergunto, no momento da aplicação:
- Tem sapo ai?
- Não.
- Então, pode continuar. (E nisso me agacho, solto os músculos, concentro, prendo a respiração - menos indicado - e aguardo a aplicação).

A aplicação é feita com um pequeno (ou as vezes, enorme) instrumento, chamado tipi (com certeza a grafia não é essa, mas a pronúncia é parecida). O tipi, curvo ou reto, permite que o mestre ou pajé ou outra pessoa, de confiança, assopre o pó diretamente no fundo do seu nariz. E acredite, quando bem aplicado, você não sente somente no nariz, e sim diretamente na nuca. Um calor que sobe da nuca pra cabeça, pernas trêmulas, momentânea angústia seguido de estimulante euforia, são alguns dos efeitos imediatos da aplicação. A pessoa que aplica deve saber o que faz, pois tanto o modo como ele pega o pó da mão com o tipi, a maneira que assopra, e o que pensa quando assopra, influenciam positivamente, ou negativamente o trabalho. Ou seja, o mesmo rapé aplicado por duas diferentes pessoas certamente não será o mesmo rapé e, assim, o efeito também não será o mesmo. Poucos são os que eu permito aplicar-me. E para os casos mais extremos, existe o auto aplicador, um tipi bem curto em que você se auto-aplica, ele é bem curto, e cabe no espaço entre a boca e o nariz, e é pessoal, como escova de dente.



E que rapés são estes da minha coleção?

O de número 1, bem à esquerda, foi o Haru que fez ano passado, enquanto ele estava na Aldeia, lá no alto Juruá - no Rio Tejo. Na ocasião eu estava em Marechal Thaumaturgo, dando aula e passando um perrengue por causa da falta de água e do excesso de chuva. Lá nos encontramos, e ele estava com este que, na minha opinião é o melhor rapé que eu já experimentei em toda a minha ínfima existência aqui. Observando a cor dele, pode-se perceber um tom mais avermelhado e a textura bem fina. É um rapé com muito pouco tabaco (ao contrário do 2 e do 3, por exemplo, que pela cor, demonstram que tem bem mais tabaco). Este foi o rapé que usei ontem a noite. O rapé que cuido como fosse ouro, e já está acabando. Pra se ter idéia de como ele fez sucesso enquanto estávamos em MT, é que todos os índios que lá se encontravam (e eram muitos, por ocasião do Novenário de São Sebastião, padroeiro da cidade), Katukinas, Ashaninkas, Araras, Yanawas, todos visitavam a casa em que o Haru estava hospedado (e que eu estava também...) para as sessões de rapé e música. E não faltavam elogios para o rapé do Haru.

O de número 2 foi um menino, quase rapaz, que com o conhecimento apreendido do pai, curador da floresta, já se transformou em um grande produtor de rapé, quase um mestre. O rapé que ele faz geralmente tem entre 11 e 17 espécies diferentes, e com tabaco. É um rapé bem forte.

O de número 3 foi um iniciante na arte de fazer rapé que o produziu. Ainda possui muita umidade, por isso e por não ter sido bem triturado, aparece mais grosso. Sendo mais grosso, pior assimilação. Mas é um rapé forte também.

O de número 4 foi um rapé também produzido no Alto Juruá, lá em Thaumaturgo, dentro dos princípios da tradição Ashaninka. Não tem nenhum tabaco. É bem claro pois os constituintes são bem queimados, quase reduzidos à cinza, e, se bem me lembro, são sete espécies diferentes, entre elas o cipó Jagube, mesmo que faz o Ayahuasca, mesmo que faz o Daime.

O de número 5 foi o pajezinho Haru que fez também, É bem recente, foi feito na aldeia dele. Bom esse foi em mim o que teve o efeito mais forte. Foi como se me tivessem aplicado a Vacina do Sapo, pois fiquei todo coçando e a glote fechou um tanto que fiquei com falta de ar. Perguntei ao Haru se ele havia colocado sapo e ele negou, dizendo que a composiçãoo deste era semelhante ao de número 1. Bom, sei lá, devia ser o momento e eu devia estar precisando. Mas estranhamente, é o rapé que eu ainda disponho em maior quantidade na minha coleção.

É isso, lembrando que o efeito do rapé, quaisquer que seja, da origem que seja, é original somente quando aplicado aqui, na FLORESTA.

19 comentários:

Pablo disse...

queridão, teu blog tá dez, muito inspirado, equilibrado com tudo de bom: informação, opinião, bom humor...
Excelente!
Parabéns.

Anônimo disse...

Olá Amigo, meus parabens pelo site e um grande abraço a todos esse povo dai..

Abraço a todos

Carlos
Florianopolis/SC
BRASIL

Vitor disse...

E sobre o rapé verde que vem de algum lugar perto de Boca do Acre, eu não sei examente de onde, você sabe alguma coisa a respeito?

Anônimo disse...

Parabéns pelo blog.
Conheci com um indio do Juruá o rapé de Pau Pereira.
Nossa!!!
Voei baixo, mas foi um professor, descobri que estes rapés de latinha industrializados não são rapés coisa nenhuma.
Abraço e parabéns
ALEXANDRE KM

francisco disse...

Olá,

gostei do blog, é uma forma de contato muito boa.

estou com dúvidas de como fazer o rapé com pau pereira. vc pode me ajudar?

Irineu
SP

Claudio de S. Custódio disse...

Rapé, adoro! :) pena que seja tão raro eu conseguir um bom.!
Belém-PA

marcello disse...

Olá

Muito bom o material. Sei que o rapé na floresta deve ser o ideal, mas por emquanto consumo um caseiro nas fronteiras da Reserva da Fundação zoobotãnica do RGS(próx a unisinos). Gostaria de ter acesso a um rapé produzido por aí.Nosso rapé e produzido em ritual de bateção, rezado. Estes dias pruduzimos um com erva mate aqui de casa.Se poderes me auxiliar meu email é kochberg@hotmail.com

Grato, Marcello

Gustafari Familia Zen Jah disse...

Aho! bela postagem...
Eu sou da Ilha do Mel PR
e faço rapé com tabaco e pau pereira
qndp estiver pela redondeza da um toque

meu contato

gustafari_honey@hotmail.com


Viva a Madicina da Mata!

Anônimo disse...

ola , sou estudante de medicina e acredito no rape tbm em um ritual medicinal, ate hj o melhor q ja usei foi de sua regiao, sou de pvh, entre em contato comigo por favor, quero compartilhar o meu modo de preparo de rapé, pode ser que se interesse.
cassiushenn@gmail.com

Anônimo disse...

ola, sou estudante de medicina e gosto de rapé, exceto esses vendidos em tabernas... ja tomei kambo tbm... faço rapé, quero compartilhar algumas informacoes com vc, entre em contato assim q der
moro em pvh
cassiushenn@hotmail.com

Anônimo disse...

ola, mandei um outro e-mail pra vc pra continuar nossa conversa sobre os rapés, para mim é importante essa nossa converssa, aguardo sua resposta

cassiushenn@gmail.com

Terra Náuas disse...

O rapé verde de que alguém perguntou é o produzido pelos apurinã. A. cinza de "pau pereira" é o que eles chamam de "tsunô" na região. Muito legal a postagem, amigo

Anônimo disse...

Gostaria que algum dos irmãos que, assim como eu, acreditam no poder da medicina nativa, pudesse me ajudar a conseguir um bom rapé, com força e qualidade. Sou morador de Brasília e por aqui ainda não encontrei, se não, os comuns de "latinha".
Certo que encontrarei o auxílio desejado.
Israel Braz.
braz.dftrans@gmail.com

markos thadeu disse...

Fala Parceiro! Tem algum lugar que eu possa comprar um desses bons aqui em Rio Branco no Acre?

nathalie disse...

Olá!

Gratidão pelas informações.

Tenho alguns rapés indígenas, mas não acho nenhum com cânfora ou mentol, gostaria de saber se a cânfora utilizada nos rapés é aquela resina branca transformada em pó.

Obrigada!

Athaydes disse...

Oi Nathalie,
Acredito que seria difícil algum rapé nativo ter cânfora, já que Cinnanomum camphora, é originário da Índia e Ásia. Com menta seria a mesma coisa. Geralmente é extraído da raiz da cânfora uma resina, e desta se processa o óleo e outros subprodutos.

Ganhei de um amigo um rapé que tem: cardamomo, cânfora, menta, açafrão e eucalipto. É da Unani Medicine, indiana. Talvez encontre pela internet.

Abraços, obrigado por visitar o blog!
Athaydes

Andreson disse...

Parabéns pelo porte sobre os Rapés,

Muito importante vê práticas de uma natureza anárquica em meio a esse mundão industrial/ transgênico e artificial...

Ainda visitarei o Juruá, tenho muitos amigos por ae,
Abç,

Hortensio Ribeiro Faraúde disse...

como faço para comprar o rapé de kambô

Athaydes disse...

Hortensio, tudo bem?

Amigo, por questões éticas e de respeito às tradições indígenas, não informo aqui maneiras de comercialização destes produtos. Mas indo ao Acre é bem fácil encontrar. Abração!

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