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13 de julho de 2008

MAPINGUARY
Versos do poeta-seringueiro acreano
Amâncio Leite, extraídos de “Os cantares
Seringueiros”, edição de 1930.


Certo seringueiro, um dia
Chegou correndo da estrada
Na qual, há tempos não ia,
Não trouxe leite que desse
Para melar a bacia!

Chegou cedo, muito cedo;
Antes da hora marcada,
Seu companheiro ainda andava
Lá pela volta da estrada.
Fez assim, só porque dera
Uma carreira danada!

O triste vinha afrontado,
Verde-amarelo e sem fala!
Saltando dentro de casa
Deitou-se em meio da sala.
Seu rifle de doze tiros
Não trazia uma só bala!

Que teria acontecido
Com aquele pobre rapaz!
Se teria ele esbarrado
Com o velho satanás?
Talvez, depois saberemos
Quando chegar Zé Thomaz.

Zé Thomaz- o companheiro
Chegou, depois de uma hora.
Quando o viu, gritou de longe:
- “Que foi ‘seringueiro espora?!’
Teria você ‘encontrado’
Mapinguary ou caipora?”

“-Encontrei mapinguary:
(Respondeu-lhe João Tomé)
Me ‘atrepei’ numa ‘pupunha’
Com as alpargatas no pé...”
“-Então me conte ‘direito’
como esse danado é!”

“-Ele é maior que um boi
Daqueles do rio da Prata...
Chega ‘estremecia’a mata...
Fez-me ‘atrepa’na ‘pupunha’
Calçando as alpargatas!”

“-Mas rapaz... será ‘possível’
Que não deste ‘ao menos’ um tiro?...”
“-Ora, eu não dei... dei só doze!
Mas, de que mais me admiro
É ‘que ele’ fez tanta conta
Que não mudou nem de giro!”

“-Mas onde foi que encontraste
Tamanha ‘fera’ de fama?...”
“-Foi no ‘cabeço’ da volta
Junto à madeira da ‘cama’
Cá mais atrás, eu vi, ‘fresco’
O rasto dele na lama...”



“-Esse bicho é cabeludo
E todo cheio de escama?”
“-Eu lá pude ‘reparar’
Pra esse ‘filho de mulher-dama’?
Que além de ser muito feio
É todo cheio de trama!...”

“-E o resto dele, como é?
Se parece com o de burro?”
“-Parece, mas é maior!
E se tu lhe visse o ‘esturro’!...
Eu penso que aquele... figa,
Mata as ‘onça’só de murro.”

“-Que vê, ‘vamo’quinta-feira
Que é dia que ninguém corta...
Hoje é segunda e é das ‘arma’
(Santo pra quem tem mãe morta)
Tu vai só vê o ‘esfolado’
Na baixa da ‘ponte-torta’...”

“-Eu tava ‘cuiendo’ o leite
Da madeira do ‘cabeço’
Quando vi um grito longo
‘Como’ outro não conheço!
Me deu um tremor nas perna
Que quase a terra eu não desço...”

“-Mas, afinal desci sempre
Me assustando de Cupim!
Rifle com bala na agulha
Mão no cabo do ‘ispadim’.
Quando eu cheguei debaixo
Ele gritou mesmo assim
Desta vez foi ‘redobrado’
Gargalejando no fim!”

“-Eu armei o ‘pau-furado’
Me encostei na ‘seringueira’
Quando o monstro ‘pretejou’
Eu pensei que era um bandeira...
Baixei a bala pra cima...
Mas qual José. Foi ‘besteira’!”

“-Enquanto o cão coça o olho
Dei dez tiros no danado...
Mas ele, nem ‘mode’ coisa!
Nem ficou ‘arrepiado’
Continuou avançando
No meu rumo, me provando
Que tinha o ‘corpo-fechado’.”

“-Aí dei-lhe mais dois tiros.
Pronto! O rifle virou pau...
Meus cabelos espencaram
As pernas virou mingau...
Meti a mão na poltrona,
Nem uma bala, sinhá dona,
Danou-se seu ‘Nicolau’.”

“-Aí, eu vi ‘que morria...’
- A coisa tava amarela! –
Na ‘madeira’ eu não subia
Pois é de sete tigelas
Chorei de ser seringueiro...
‘Cacei’os dois ‘companheiros’
Já tavam no ‘pé-da-goela’!”

“-Me pus de trás da ‘madeira’
Me deitei rés com o chão.
‘Me peguei’ com São Francisco
De todo o meu coração...
(Mas, o lá do Canindé!)
Nisto, o bicho pois-se em pé
Olha lá o estirão!...
Tanto é alto ‘como’ é grosso
O renegado ‘Mapim’
Eu me pegava com os santos
Não da ‘fé’ ele de mim!
Oh! Que aperto... que agonia...
Meu...- aquele- não cabia
Nem um talo de capim...!”

“-Ele ‘arreganhou’ as unhas
E me arranhou a ‘madeira’!
Nisto, eu me ergui e corri
Pro pé da ‘Tucumanzera’;
Nesta, - ‘calcule você’ –
Subi mais depressa que
‘Largatixa’ em cajazeira!”

“-Ele só fez ‘espiar’!
Mas nem ligou-me ‘importância...’
Se não fosse o São Francisco,
-Adeus ‘história’ adeus dança! –
Quem diabo a coisa contava?...
Porque nesta hora eu tava
No ‘porão’ daquela pança!...”

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