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13 de maio de 2008

Barulho grande na noite



(Luis Fernando Veríssimo – publicado em Zero Hora – 23/10/2005)

No meio da noite, os recém-chegados acordam com o ruído da água. O ruído trovejante de um rio gigantesco que certamente transbordará e levará as ruínas da cidade

Há muitos anos, me pediram um roteiro para uma história em quadrinhos. Não me lembro quem era o desenhista. Não sei se a história foi publicada. E mal sabia eu que ela seria profética. Era mais ou menos assim.

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Uma caravana atravessando um deserto. Quatro ou cinco homens sobre camelos e atrás deles uma fileira de camelos carregando sacos de comida e bolsões cheios de água. Época: indefinida. Só sabemos que não estamos no passado porque o chefe da caravana carrega um sofisticado aparelho de orientação por satélite no seu camelo. É o satélite que guia a caravana para o seu destino: a misteriosa cidade de Anhabã-açu, no meio do deserto.

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Quando montam suas tendas para dormir, à noite, os homens sentam em volta do fogo e conversam sobre a sua missão. Só um deles - o chefe - conhece a misteriosa cidade de Anhabã-açu. Já levou comida e água para Anhabã-açu muitas vezes, mas sempre volta com medo. Sempre volta com terror. O que quer dizer "Anhabã-açu", perguntam ao chefe. É um nome dado pelos indígenas da região, responde o chefe. Ou pelos últimos indígenas da última tribo da região, anos atrás. Quer dizer "Barulho grande na noite". Por que a cidade tem aquele nome? Vocês verão, diz o chefe da caravana. Vocês verão.

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A viagem leva muitos dias. No tempo em que havia gasolina, quando era feita com caminhões-pipa, levava poucos dias. Agora é feita em muitos dias. A água e a comida carregadas pelos camelos têm que ser racionadas. Os sacos e os bolsões precisam chegar cheios para a população de Anhabã-açu. Quantos habitantes tem Anhabã-açu? "Da última vez que estive lá eram sete", responde o chefe. Sete?! Todo este trabalho para levar água e comida a sete pessoas no meio do deserto?! É, responde o chefe. Ele também não sabe por quê. Só cumpre a sua missão.

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A caravana chega a Anhabã-açu numa manhã. A cidade está em ruínas. Só o que parece ter resistido ao sol e ao vento carregado de areia do deserto é um incongruente prédio que lembra um teatro europeu do século dezoito, uma ópera, sobressaindo-se da desoladora paisagem à sua volta. Não longe do teatro está o alojamento do destacamento que ficou na cidade, agora reduzido a cinco pessoas. O comandante do destacamento recebe a caravana. Manda descarregar os camelos e convida os membros da caravana a dormir no acampamento, antes de começarem sua viagem de volta. Não há nada para fazer na cidade, conta o comandante. Podem visitar o teatro, se quiserem, mas só verão suas paredes antigas cercando um monte de areia.

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No meio da noite, os recém-chegados acordam com o ruído da água. O ruído trovejante de um rio gigantesco que certamente transbordará e levará as ruínas da cidade e até o grande teatro na sua correnteza, da qual ninguém escapará. Saem para a rua em pânico, à procura de um lugar alto para escapar das águas do grande rio. Mas não há rio algum. Só há o ruído apavorante de um rio que não se vê, e que diminui pouco a pouco até voltar o silêncio. O comandante pede desculpas. Deveria tê-los avisado. Aquilo acontecia todas as noites. Um rio fantasma passava pela cidade fazendo um grande barulho. Mas só fazia o barulho. A areia que cobria tudo continuava seca depois da sua passagem. Ele não sabia, talvez houvesse um rio ali antes. Já tinham se acostumado. A opção era só essa, se acostumar ou enlouquecer.

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Perguntaram ao comandante por que o destacamento continuava naquele lugar mal-assombrado. Ele respondeu que cumpria uma lei antiga, cuja origem se perdera no tempo. Talvez fosse até de AFG, antes do fim da gasolina. Algo sobre marcar a presença brasileira na região, para prevenir a cobiça internacional.

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