Translate

15 de maio de 2006

De Batelão pelo Juruá

De Thaumaturgo para Cruzeiro de Sul – 28 e 29 de janeiro de 2006.

Tudo inicia calmo e calmo permanece. Afora a zoada das crianças, o movimento de arrumar as tralhas no barco são milimetrados. Quando subimos no batelão, eu e a Mariana, colega da UFAC de Rio Branco, pesquisadora há muitos anos na região, já o povo todo da família do Seu Antônio – e que são muitos – se arrumavam nos seus cantos. O barco, conhecido aqui como batelão, não tem mais do que quatro metros de largura por 12 ou 14 de comprimento. A área útil de estada não passa de 6x3 metros, mais toda a bagagem, e, no meu último censo, 17 adultos, 15 crianças – até o momento seis redes armadas – uma caturrita, um cachorro, um gato e um cabrito, na proa. O cachorro é brabo. No topo da cabine alguns galos e galinhas. Somos impulsionados por dois motores a diesel de 14hp cada, ou seja, o barco vai lento. A previsão até o momento é de chegarmos amanhã em Cruzeiro do Sul. Ainda no barco, vários quilos de banana, outros de farinha (como poderia faltar?), água de cacimba e dois peruanos. O cachorro, que é brabo, anda solto por aqui. Quando saímos pela manhã do “porto” de Marechal Thaumaturgo, pensava mesmo que seríamos acompanhados pela indesejável companhia dos catuquins, meruins e piuns, fora os carapanãs. Por sorte, não ainda, nem quando o barco parou para subirem os peruanos. O rancho cada passageiro é responsável pelo seu, como passamos o nosso para a chefe de cozinha, logo fomos incluídos no coletivo, cozido de bode (pelo menos não foi o cabrito da proa), arroz, macarrão e farinha. Banana à vontade. Acho que não conseguirei colocar minha rede, mas só a possibilidade de esticar as pernas, ficar um pouco em pé, caminhar pelo barco, já me alegra bastante nesta longa viagem, coisas que não foram possíveis quando da viagem de ida ao Alto Juruá, de canoa, sentado sempre na mesma posição. Por sorte chegaremos em Porto Walter ainda hoje, se não, dormiremos no caminho pois não há como viajar a noite pois, em virtude da cheia do Rio Juruá, estão descendo muitos troncos grandes de árvores, as vezes árvores inteiras. Ensurdecedor é o barulho dos motores, mesmo com uma portinhola que isola a popa do resto do barco. A direita desta portinhola, está a pequena cozinha, e em frente da cozinha, o minúsculo banheiro (comentário desnecessário: sorte minha ser homem nestas ocasiões). Assim seguimos Juruá abaixo. Em umas duas oportunidades o barco pára na margem, atendendo ao chamado de uma pessoa que quer se tornar passageira. Quando eu pensava que não havia mais lugar ou condições para mais alguém subir a bordo, já estava o barco parando novamente. Em um determinado momento parei a contagem de passageiros. Informações desencontradas indicam que é possível que o barco siga descendo o rio mesmo a noite. Tenho certo receio disto, acho que não conseguirei dormir. A certa altura de um entardecer que se aproxima, a senhora do Seu Antônio, Dona Maria, serve a janta, um exclusivo ensopado de bode, acompanhado de macarrão, arroz, banana e farinha à vontade. Este é o sinal que estaremos parando em breve para pernoitar. Já quando o sol vai se escondendo por trás da floresta que acompanha a margem, aproamos em um barranco, igual a todos, desconhecido para mim mas conhecido do Seu Antônio. Neste momento um impasse, já que não há condições espaciais de todos dormirem dentro do batelão. Preferimos então, por sugestão do Seu Antônio em respeito à Mariana, dormir na casa daquele que conhecemos como sendo um de seus primos. Seu Antônio foi patrão no seringal, por muitos anos, e acumulou diversas histórias reais, como ele mesmo gosta de afirmar, e explicita um grande prazer em dividi-las com todos. Prazer maior foi meu. A noite transcorreu tranqüila, finalmente em terra depois de horas embarcado. Foi marcada a saída para 5:00 da manhã, e na hora marcada estávamos lá. Minha ansiedade em chegar em casa era grande. Mas na verdade ainda demorou pelo menos uma hora até a saída ser possível. A previsão do nosso timoneiro é que estejamos chegando em CZS perto do meio dia. Mas a cada hora descendo o rio, mais esta previsão se flexibiliza. Esta segunda etapa da viagem não teve maiores novidades diferentes da primeira etapa. O barulho do motor continuou forte, algumas crianças chorando, o cachorro de vez em quando avançava em alguém, e no almoço, bode. Banana à vontade. Quanto mais nos aproximamos de CZS, mais parece que está demorando a viagem. Dai deste ponto, enjoei, comecei a passar mal e tiver que deitar no fundo do barco, perdendo o espetáculo dos botos na água, percebido por mim através dos grito das crianças. Passamos o Rio Môa, Cruzeiro já se aproxima, agora é questão de uma hora estaremos lá. Depois daquilo que era enjôo virar uma tremenda dor de cabeça, pude levantar e finalmente avistamos CZS. A cidade, com a luz do poente que já se pronunciava, fica muito bonita vista do rio. Sem dúvida uma imagem magnífica, que ficará para sempre gravada na minha memória.

0 comentários:

Blogs Favoritos