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20 de dezembro de 2005

Chegando no pedaço

Olá Amigos!

Escrevo esta carta aqui das instalações do antigo Projeto Rondom, já em Cruzeiro do Sul, Acre. Estou provisoriamente e precariamente instalado aqui, acampado mesmo. Fui empossado como professor efetivo da Ufac no dia 11 de novembro, em uma cerimônia simples que empossou mais 20 professores do último concurso. A posse foi na Ufac sede, em Rio Branco. Junto a mim, foram empossados mais 3 professores especificamente para a Universidade da Floresta, que é o Campus avançado da Ufac em Cruzeiro do Sul (CZS), e, na segunda-feira depois da posse já voamos para cá, para nos apresentarmos ao coordenador do campus. Somos os primeiros professores de uma turma de 30 que virão para cá, 10 para cada centro criado: Centro de Ciências Biológicas e Tecnologia (com os cursos de eng. Florestal e Biologia); Centro de Ciências Humanas e Sociais (letras e pedagogia) e Centro de Ciências de Saúde (no momento, enfermagem, a ser criado). Como na terça foi feriado, efetivamente comecei a trabalhar na quarta, dia 16 de novembro. Como ainda estamos de greve, não há muito o que fazer, a primeira tarefa é fechar a bibliografia a ser comprada para a biblioteca daqui, já que os cursos agora vigentes são de letras e pedagogia. Junto a isso, iniciar o detalhamento das ementas e súmulas das disciplinas a serem ministradas. Logo trataremos das questões do vestibular e, também da estrutura do novo campus.

O campus atual da Ufac aqui é bem simples. Com a estrutura bem básica. Os professores todos (atuais) ficam em uma mesma sala. A internet ainda é conexão discada, para toda a universidade. A intenção oficial e transferir o campus daqui para uma nova sede, a 12km de distância, em local chamado Canela Fina. Lá as instalações serão todas novas e a internet será via satélite. O início das construções está previsto para maio do ano que vem, quando a estrada que vem de Rio Branco para cá reabrir em função do término do período de chuvas, que no momento são torrenciais. E provável que o campus novo ainda não esteja pronto quando as aulas começarem, e as atuais instalações não comportam mais três cursos (105 alunos). Por este motivo, serão alugadas instalações de um colégio, próximo ao centro para dar início as aulas.

O difícil no momento está sendo conseguir casa para morar. Como em outros locais de fronteira, aqui a presença militar é muito forte, e, nesta época do ano eles fazem troca de batalhão, portanto, a procura de imóveis para alugar é intensa. Mas estou esperançoso de conseguir uma casinha, dois quartos, bem junto a Ufac, com um bom pátio e com um pé de manga no fundo. O aluguel até que é barato, 300reais, mas a vantagem e que a água é de graça, de poço artesiano. O que não é muito bom é a questão do custo de vida nesta época do ano. Muito caro, pois a maioria dos gêneros alimentícios vem de avião, principalmente verduras e enlatados, e a comida, apesar de muito boa, é muito cara (algo como 20reais o quilo nos buffets, que não são livres).

As instalações aqui do Projeto Rondom continuam firmes após mais de 40 anos. A primeira aula da Ufac em CZS foi ministrada aqui no Rondom. São salas bem amplas com um sistema de ventilação próprio, todas teladas e muito bem planejadas, com venezianas de madeira ocupando paredes inteiras. Muitos professores passaram por aqui, tanto dando aulas quanto se instalando temporariamente até conseguir uma casa definitiva para morar. O que é o nosso caso, meu e de meus colegas. Mas é tudo improvisado. Não tem cozinha ou quartos. Dormimos nas salas de aula mesmo, em redes com mosquiteiros. Falta água com freqüência, não tem telefone e um tanto distante do centro, apesar de perto da Ufac (da de ir a pé). Na nossa primeira noite aqui fomos recepcionados por uma cobra, dentro da sala. Passado este susto, o resto está até muito bem, pois a temperatura aqui é mais baixa que a média da cidade.

A cidade tem uma topografia bastante interessante e peculiar, em se tratando de uma cidade amazônica. Ela é toda cheia de altos e baixos. Mas altos e baixos mesmo, ruas muito íngremes. O centro como esta próximo ao rio Juruá, é mais plano, mas para chegar na maioria dos bairros, deve-se penar, subindo e descendo lombas (ladeiras). O transporte não é muito barato também, mesmo os oficiais são escassos. O taxímetro dos táxis é no grito, como dizem. Acerta-se o preço antes da corrida, assim, recorre-se muito aos moto-táxis, cujo preço também é acertado no grito. Como eu trouxe minha bike, posso me deslocar independente de transporte, e estou achando muito bom, pois tudo é relativamente perto.

O que mais me impressionou até o momento foi a receptividade do povo. Tanto dos nossos colegas locais quanto do povo mesmo. Já no primeiro dia em CZS conhecemos muita gente, desde um vereador, alguns magnatas até pessoas muito simples e todos muito interessados na nossa vinda, e muito humildes, colocando-se sempre a disposição para qualquer pedido ou necessidade nossa. Conhecemos alguns muito figuras, como um ex-seringueiro, que foi vendedor de garapa e arroz doce em tabuleiro, engraxate, balconista, taxista, comerciante e agora é dono de metade do postos de gasolina da cidade e de muitas casas e prédios. Dono de uma personalidade forte e contagiante, nos passou uma lição de vida atrás da outra, já esteve entre a vida e a morte depois de um acidente de avião (os antigos que faziam a linha para cá), de onde só sobreviveram 7, mas é de verdade uma excelente pessoa, muito simples, que perdeu um dia inteiro dos seus negócios nos mostrando a cidade, na maior boa vontade.

Admito que é bem difícil começar a vida do zero em uma cidade desconhecida. Tenho como vantagem o profundo respeito que as pessoas tem pelos professores – só me chamam de sr. ou sr. professor e a vantagem de estar sendo mui bem assessorado pelos meus colegas locais. Logo terei tempo de subir o rio Juruá até a Serra do Divisor (chamada de serra do Moa pelos locais), que são quatro a cinco dias de barco... mas é possível sentir a presença espiritual e física da floresta muito próximas, é só conversar com as pessoas ou olhar o horizonte ao longe, de cima de um morro. Quanto ao clima e a umidade do ar, é só uma questão de costume, mas não vejo a hora de estar na minha casinha para poder passar um cafezinho sem açúcar...

Logo que eu tiver telefone próprio e endereço informo vocês, por agora, envio um grande abraço daqui das verdes florestas do extremo ocidente brasileiro.
Fiquem em paz
Marcus

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